O Brasil se transformou num dos países mais violentos do planeta (hoje é o 13º no ranking internacional entre mais de 170 países). Diariamente as notícias falam de agressões, violências, linchamentos, assassinatos, mortes no trânsito etc. Impõe-se uma cruzada nacional por um país mais pacífico que possa trazer benefício para as próximas gerações. A compreensão de todo fenômeno social começa pelo entendimento dos conceitos. Violência deriva do latim vio.lentia que significa vis (força) mais lentia (permanente, uma atuação constante, frequente). Como bem sintetiza Iñaki Rivera Beiras (2014), “é o uso da força de modo continuado”. A violência faz parte da guerra. Todo país extraordinariamente violento (como o Brasil) está em guerra (interna ou externa; militar ou civil; declarada ou não declarada). O oposto da guerra é a paz, que possui vários significados: (a) harmonia com a natureza, com a terra (chamada de Pachamama), ou (b) estado de suspensão da guerra (esse era o sentido grego clássico, que usava a palavra “Eirene” – traduzida para o espanhol e para o português como Irene – para exprimir a paz) ou (c) “pax romana” (trégua imposta pelos pelo Império romano aos povos submetidos a ele).

Chocado com as atrocidades do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, Johan Galtung fundou em Oslo (capital da Noruega) o Institute for Peace Research e se transformou numa das maiores autoridades no assunto. Uma das suas classificações da violência (citada por Iñaki Rivera Beiras: 2014) continua muito válida até hoje: (1) “violência direta” (física ou verbal, com efeitos visíveis, decorrente de um conflito); (2) “violência estrutural” (a que emana das estruturas do poder político-econômico e que impede os indivíduos ou grupos de realizar o potencial de suas capacidades mentais ou somáticas) e (3) “violência cultural” (que provém das religiões, opinião pública, ideologias, linguagens… que justificam as anteriores violências). O mesmo autor (Galtung) ainda faz uma distinção muito relevante entre (1) “paz negativa” (ausência ou produção minimalíssima da violência direta) e (2) “paz positiva” (só alcançada pelas sociedades que promovem a concretização efetiva dos direitos fundamentais das pessoas, ou seja, as que proporcionam condições de vida sustentáveis para todos, incluindo-se aí vacinas, moradias, assistência, trabalho contínuo, salário digno, saúde, educação de qualidade etc.). (veja Rivera Beiras: 2014).

As sociedades mais doentes do planeta são as que apresentam as mais profundas desigualdades, provocadas pelas estruturas político-econômicas, onde os indivíduos ficam impedidos de desenvolver suas capacidades e habilidades potenciais, acabando jogados para o grupo dos perdedores (dos vencidos, dos marginalizados). Esse é um tipo de violência, a estrutural, que normalmente está na base de outras violências, as diretas e as culturais. O país impregnado de violência estrutural não chega nunca a desfrutar da paz positiva (da paz plena). Os países mais prósperos do planeta (que chamamos de “escandizavizados”: Noruega, Suécia, Islândia, Finlândia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Coreia do Sul etc.) refutam contundentemente a divisão da sociedade em “senhores de engenho” e “escravos”. Essa herança colonialista está nas raízes da violência estrutural da sociedade brasileira; a violência estrutural, por sua vez, é desencadeadora de outras violências. Como se vê, o Brasil não se tornou o 13º país mais violento do mundo por acaso. Não se constrói um país tão violento e tão cruel da noite para o dia.

 Editorial do Instituto Avante Brasil 

 

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