Noah Salzman: “Alguns estudos revelam que mais de 25% dos adolescentes têm sido vítimas do cyber bullying através de mensagens de texto ou pela Internet. Aproximadamente 85% dos adolescentes foram intimidados pela internet pelo menos uma vez”.

Nesta semana, o Instituto Avante Brasil entrevistou Noah Salzman, vice-presidente de comunicação da organização não governamental pelo fim do bullying cibernético “End to Cyber Bullying – ETCB”, com sede em Long Island (NY), Estados Unidos. Fundada em Maio de 2011 por jovens de uma escola de ensino médio em Jericho (NY), a instituição tem por escopo sensibilizar e informar pessoas de todo o mundo a respeito do cyber bullying, bem como mobilizar estudantes, educadores, pais e outros na tomada de esforços para acabar com o problema. Além disso, a ETCB tem o objetivo de auxiliar vítimas desse tipo de perseguição e criar uma rede social global onde todos os usuários se sintam seguros.

Em entrevista ao iAB, Noah fala sobre o perfil da vítima e de quem pratica o bullying cibernético, esclarece dúvidas sobre o assunto e orienta sobre como identificar e prevenir esse tipo de prática. Segundo informações da ETCB, dos mais de 95% dos adolescentes que usam as redes sociais para se comunicar com amigos,25% já foram vítimas de cyber bullying, seja por meio de mensagens de texto, seja pela internet. E o pior: 90% das vítimas não informam um adulto ou uma pessoa de confiança sobre o abuso.

Confira abaixo a entrevista completa com o jovem Noah, vice-presidente da organização que já mobiliza 350 voluntários em todo o mundo.

Instituto Avante Brasil (iAB) – Conte-nos um pouco sobre a história da organização “End to Cyber Bullying”.

Noah Salzman – A ETCB foi fundada em 2011 por um grupo de estudantes da Jericho High School (escola de ensino médio de Jericho), em Long Island, Nova Iorque. Como um grupo engajado, nos reunimos para elaborar um plano global que pudesse impactar e prevenir a sociedade a respeito do cyber bullying. Na época, apesar da nossa pequena dimensão, trouxemos fervor e unidade para a iniciativa e, assim, nosso pequeno grupo serviu como um trampolim para os sucessos futuros. Hoje, nosso alcance online se estende para mais de 4,5 milhões de indivíduos e temos cerca de 350 voluntários em todo o mundo. A mesma paixão que tivemos desde o início nos inspira a continuar espalhando positividade a cada dia, e não vamos parar até que a “epidemia” do cyber bullying acabe.

iAB – O que é cyber bullying? Ele pode ser considerado um problema relevante para a sociedade tecnológica de hoje?

Noah – O cyber bullying pode ser definido como o uso deliberado e repetido de tecnologias de mídia com o objetivo de fazer mal a outra pessoa. Este, sem sobra de dúvidas, é um dos problemas mais relevantes enfrentados pela nossa sociedade hoje. As pessoas estão cada vez mais vivendo o mundo on-line e, infelizmente, essa aproximação pode resultar em depressão, isolamento de atividades regulares e, até mesmo, o suicídio. Para aqueles que desprezam o cyber bullying e o consideram inconsequente, posso dizer com firmeza que este é realmente um grande dilema em nossa sociedade. A mobilização na luta pelo combate ao bullying cibernético, portanto, é uma peça extremamente importante para acabar com o problema.

IAB – Quais são as principais motivações para a intimidação cibernética?

Noah – No ambiente cibernético, pessoas intimidam as outras por várias razões. Não há um impulso específico por trás de cada ocorrência de cyber bullying. No entanto, estudos indicam que aqueles que intimidam no meio cibernético são, frequentemente, indivíduos que não conseguem lidar com suas próprias inseguranças ou questões sociais e familiares. O cyber ​​bullying é, muitas vezes, uma questão de poder. Aqueles que se sentem compelidos a afirmar sua autoridade sobre outros consideram a intimidação como um meio de tentar provar que eles são, de alguma forma, superior.

IAB – Existe um perfil padrão das vítimas e dos praticantes de cyber bullying? É verdade que a prática do CB é mais comum entre adolescentes?

Noah – É impossível definir o protótipo de um praticante de bullying cibernético e de uma vítima. Não se pode estabelecer um perfil generalizado ou uma metodologia que explique quem são os praticantes e quem se torna vítima. Os praticantes do bullying cibernético apresentam comportamentos negativos como uma forma de lidar com seus próprios conflitos internos. Porém, eles não nascem com o instinto de ridicularizar os outros online. Apesar de mais comum entre adolescentes, os adultos também podem ser vítimas do bullying cibernético.

IAB – Como as vítimas normalmente reagem ao cyber bullying? Qual é a melhor maneira de enfrentá-lo?

Noah – Muitas pessoas não sabem como responder ao bullying cibernético. Alguns indivíduos acreditam que desligar o computador é suficiente, mas não. A internet é marcada por uma conectividade permanente que, muitas vezes, vai além do controle de quem utiliza o computador. Assim, quando um indivíduo percebe que está sendo vítima da prática, a melhor atitude a tomar é relatar a ocorrência às autoridades ou a uma pessoa de confiança.

No entanto, o mais importante é que as pessoas entendam que o bullying é inaceitável. Uma vez que as pessoas tomarem a devida responsabilidade por suas ações, a rede se tornará um ambiente muito mais seguro e amigável.

IAB – Quais são as consequências do cyber bullying? Elas podem ser irreversíveis?

Noah – As consequências do bullying na internet podem variar substancialmente. Alguns indivíduos sentem-se alienados temporariamente até que o problema passe. Para outros, o trauma não diminui com o tempo. Consequentemente, o cyber bullying pode causar depressão, isolamento e, sob as circunstâncias mais graves, suicídio. Claro, algumas dessas ramificações são permanentes, e é por isso que as pessoas devem pensar com responsabilidade antes de digitar mensagens com conteúdo ofensivo na internet.

IAB – Qual é a plataforma tecnológica mais comum para a prática do bullying cibernético?

Noah – Os dispositivos mais populares usados ​​para a prática do cyber bullying são os telefones celulares e computadores. Os computadores parecem ser mais comuns. Isso porque é mais fácil para o indivíduo se esconder atrás da tela de um computador. Esse anonimato dá ao usuário online uma sensação de segurança, mas na verdade, o praticante do bullying na internet pode ser rastreado através de vários métodos, incluindo o endereço IP de rastreamento.

IAB – Quais são as estatísticas gerais sobre o cyber bullying?

Noah – Alguns estudos revelam que mais de 25% dos adolescentes têm sido vítimas do bullying cibernético através de mensagens de texto ou pela internet. Aproximadamente 85% dos adolescentes já foram intimidados pela internet ao menos uma vez. Por fim, o mais impressionante é que pesquisas mostram que 90% das vítimas não informam um adulto ou uma pessoa de confiança sobre o abuso.Apesar de nenhum estudo ser 100% preciso, os números não deixam de ser surpreendentes.

IAB – Como é a legislação nos Estados Unidos em relação ao cyber bullying?

Noah – Alegislação nos Estados Unidos varia muito de estado para estado. Enquanto alguns estados adotaram esforços para implementar medidas legislativas que limitem o cyber bullying, outros afirmaram que a arena cibernética não cai sob sua jurisdição. Estes relutam em introduzir quaisquer leis. Acredito que precisamos encontrar um equilíbrio entre a influência do governo e a responsabilidade dos cidadãos.

IAB – Qual a situação do cyber bullying no mundo?

Noah – O​​bullying cibernético está afetando os indivíduos de forma global e isto é o que torna a questão tão única e absolutamente universal. Em qualquer região desenvolvida em que as pessoas têm acesso à internet, o cyber bullying existe em um determinado grau. Devido a isso, pessoas no mundo inteiro devem tornar-se líderes em suas comunidades e levantar uma bandeira contra o cyber bullying. A “End to Cyber Bullying”, por exemplo, oferece oportunidades para jovens líderes de todo o mundo para que possam multiplicar a importante mensagem contra esse tipo de prática.

IAB – Como podemos evitar o cyber bullying, e como os pais podem identificar que seus filhos estão sendo provocadores ou vítimas dessa prática?

Noah – Há muitas maneiras de se evitar o cyber bullying, mas as técnicas básicas envolvem educação e comunicação aberta na escola e em casa. É absolutamente essencial que as crianças entendam o cyber bullying e suas implicações. Os pais, por sua vez, devem desempenhar um papel igualmente importante na tentativa de entender o problema. Se eles (os pais) estiverem bem informados sobre o assunto, será mais fácil identificar se seus filhos estão praticando ou sendo vítimas do cyber bullying.

*Para mais informações sobre o assunto:

http://www.endcyberbullying.org

http://cyberbullyingstatistics.org

https://www.ncjrs.gov/internetsafety/cyber.html

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