LUIZ FLÁVIO GOMES
LUIZ FLÁVIO GOMES
Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil (membro do MCCE). Estou no luizflaviogomes.com

Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, disse “que a corrupção está no Executivo, não no Legislativo” (é preciso ter muita fé para acreditar nessas barbaridades). Cid Gomes respondeu: “Na Casa existem uns 400 ou 300 achacadores”. Sincericídio ou vilania? Lula havia identificado (nos idos de 1993) 300 picaretas. Cid, que já levou a sogra num jatinho oficial para passear nos EUA, que já inaugurou hospital inacabado com um show de Ivete, teria inflacionado o mercado cleptocrata? A cada dia o povo desacredita mais ainda de toda essa tribo ladravaz, que pouco a pouco foi se degradando, até atingir as profundezas do abismo da devassidão, do descrédito e da imoralidade. Ela consegue ser pior avaliada que a própria presidenta(e) da República. A reputação dos políticos é lamaçal puro. O terreno está aberto para novas lideranças ou, desgraçadamente, como ocorreu na Itália, para um salvador imoral da pátria, do tipo Berlusconi.

Não é verdade, opinava com maestria João Francisco Lisboa (Jornal de Timon, escrito em meados do século XIX: p. 336 e ss.), que todos os que deliberam se arremessar à arena conturbada [podre e conspurcada] da vida política o fazem por força de alguns instintos malignos, dirigidos à formação de uma organização criminosa de perversidade insuperável. Mas o tempo, nos ambientes deletérios, vai corroendo a razão e dobrando as resistências [sobretudo daqueles que já adentram os pórticos da deusa denominada política com uma recheada folha de antecedentes criminais ou com a campanha comprada pelos barões ladrões que as financiam com dinheiro da corrupção].

Parece muito certo, no entanto, até mesmo pelas leis físicas, que é muito difícil respirar impunemente a atmosfera corrupta de um Estado ou de governos (de esquerda, de centro ou de direita) cleptocratas (ladrões). É muito difícil não se chafurdar onde praticamente todos se unem para pilhar o patrimônio público para a acumulação de riqueza ilícita ou para a satisfação dos interesses políticos (conquista ou preservação do poder a todo custo, incluindo-se o aparelhamento do Estado).

Inspirado no historiador citado (J. F. Lisboa) e vendo a defesa cínica que aqui fazem da escória política que se descortina e se degrada a cada dia, podemos afirmar que a degenerada ambiência da república cleptocrata (sobretudo a decorrente do abjeto conúbio das empresas gatunas e bancos larápios com os políticos e altos escalões das empresas públicas), “se não chega a fulminar instantaneamente com a morte, logo de entrada, os desventurados incautos que se arriscam temerariamente a penetrá-la”, queima e dilacera, com o passar do tempo, a honra e a honorabilidade de praticamente todos os que adentram seus tortuosos caminhos.

Salvo que o político tenha pisado o terreno infecto com o deliberado propósito de melhor conhecê-lo para poder denunciá-lo, “o normal é que se cometa a imprudência ou mesmo a leviandade de nele mergulhar (de corpo e alma) com as melhores intenções, que vão se alterando com o passar dos dias, dos meses e dos anos. Há muitos que são do bem e creem que darão um relevante sentido para seu talento e sua história de vida, exercendo um cargo público com honestidade, embora cientes do quanto é arriscada e perigosa a aventura da vida partidária”.

João Francisco Lisboa (Jornal de Timon) ainda afirmava que “reconhecem e confessam a imoralidade dos partidos, mas sempre seguros de si, e, confiados no influxo de uma estrela benigna, presumem que vão dar na balança um peso decidido contra o mal, e farão por fim tal e tamanho bem e serviço que ficarão mais que muito compensadas as humilhações que são, e a todos se antolham, inevitáveis” (p. 337). Turvada a mente por tais ideias, prossegue nosso consagrado autor maranhense, “fascinados por esta esperança falaz, e arrastados por uma doutrina perversa, pregada sem rebuço, justificada por eminentes e numerosos exemplos, e coroada por tantos resultados felizes, ei-los caminhando de transação em transação, de concessão em concessão [de emenda orçamentária em emenda orçamentária, de licitação em licitação, de financiamento de campanha em financiamento de campanha – veja o livro Nobre Deputado, de Marlon Reis], sacrificando agora um, depois outro princípio, hoje os escrúpulos de uma simples delicadeza, e amanhã tudo quanto há de grave, respeitável e sagrado na vida”.

Paulatinamente, o processo de cleptocratização (cleptocrata-existência) vai, mansamente, carcomendo o brio, a ética, o pundonor e a virtude, que constituem os eixos sagrados da moralidade humana. O depauperado processo de corrosão, normalmente, nem sequer é notado. De qualquer modo, da simples convivência vai se ingressando na conivência e, desta, para a “cleptocrata-existência”, muitas vezes sem nenhuma continência.  Entre os estágios da degradação e da depravação só existe uma tênue linha divisória.

O mal que a princípio é encarado com estranheza e horror, logo “passa a ser tolerado, dissimulado e desculpado nos outros; depois é aprovado e, por fim [quando atinge o patamar da “cleptocrata-existência”], é praticado por conta própria [com naturalidade], chegando mesmo a ser alardeado e ostentado” (J. F. Lisboa, Jornal de Timon: 337). A banalização do mal atinge níveis estratosféricos e inclusive patológicos, na mesma proporção em que aumentam os contatos infames. A alma, o caráter e até mesmo o talento se apoucam, se depravam, se aviltam e se rebaixam a um grau tão ínfimo “que nos encheria de horror se desde o primeiro passo na carreira fatal tivéssemos podido entrevê-lo” (Lisboa, citado).

Todos aqueles fantasmas que pululavam suas miragens excêntricas vão se distanciando para bem longe, “até de todo esvaecerem-se, deixando só o pesar e o remorso da fadiga e do crime, igualmente inúteis; se não é que endurecidos pelo mesmo crime, chega-se até a se gloriar da própria degradação” (Lisboa). São raros, mas muito raros mesmos, na nossa república cleptocrata, os políticos que saem incólumes desse lamaçal imoral e degradante já descrito com todas as tintas insuspeitas de Lisboa. Triste a república que se distingue pela cleptocracia, que custa a todos nós muita pobreza e miséria, muita ignorância e servidão, muito parasitismo e exploração, sem contar a descontrolada violência epidêmica.

 

 

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